Em todas as manhãs em que te vejo lembro-me da minha infância, mais precisamente da nossa primeira vez... Ah, a primeira vez que te vi foi há tanto tempo, mas nunca esqueci. Não recordo a idade, mas lembro com detalhes aquela tarde de sol recifense às margens do Capibaribe.
Dezembro de um ano qualquer, tarde ensolarada, mãe, tia, irmãos e primos pela primeira vez aquele lugar mágico. Existiam algumas regras para entrar naquele espaço e logo minha mãe se prontificou a explicar: Lá dentro tem que fazer silêncio, não pode ficar correndo, mas pode comer pipoca.
Encantada com tudo, naquele cenário tão lindo da Rua Da Aurora, daquele final de anos oitenta, havia em mim uma expectativa. Nada do que eu imaginei chegou perto de tamanho deslumbramento quando lá entrei pela primeira vez.
Finalmente de pipoca não mão, vestia uma roupa com detalhes vermelhos, feita por minha avó, passei a cortina e me deparei com o escuro. Minha mãe segurava minha mão e me direcionava a poltrona ideal para essa criaturinha que sempre foi de pouca estatura. Em seguida, o sucesso da época gigantesco diante dos meus pequenos olhos: os trapalhões. Entre pipocas e risadas seguiu a sessão, até que o letreiro subiu indicando que havia chegado ao fim. Fiquei encantada. Como até então eu só conhecia o teatro achei cabível aplaudir, e assim o fiz: aplausos aquela maravilha toda! Foi quando um garoto malvado e, provavelmente mais experiente do que eu, disse zombando da minha atitude: quando acaba vai embora, não é para aplaudir, sua besta! Discordo dele até hoje. Nesse momento as luzes acenderam e o que parecia ter chegado ao fim ainda reservava imensas surpresas.
Era tudo tão grandioso e belo. O Cinema São Luiz, esse elegante resistente dos tempos modernos de shoppings e a fins, guardava no escuro das sessões o que há de mais belo: sua arquitetura. Fiquei deslumbrada.
Anos depois, após um longo período fechado para obras, o velho e elegante Cinema São Luiz, cenário de beleza da cidade do Recife, de beijos roubados no escurinho, de encantamento meu quando menina e até hoje, foi a escolha perfeita que fiz na idade adulta para levar, também pela primeira vez, os meus alunos ao cinema.
Como no passado, expliquei igualzinho a minha mãe sobre as regras daquele espaço e ao final eu pedi para que eles não olhassem o teto e a arquitetura em volta, mas sim, admirassem tamanha beleza.
Hoje, as novas gerações não vão tanto ao São Luiz, o que é lamentável, mas eu, sempre que posso, dou um pulinho por lá para matar a saudade daquela tarde que eu nunca esqueci.
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